QUEM BRINCA

Susana Diniz

A brincante Susana Diniz, contribuiu com as formações dos projetos Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar e Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar na escola, com temas relativos à Contação de Histórias, conduzindo os participantes ao universo lúdico da imaginação. A publicitária por formação, que já lecionou aulas de Teatro, desde o ano 2.000 resolveu se dedicar à arte de contar histórias, hoje ela é arte-educadora, atriz, articuladora de bonecos, artista plástica, produtora de eventos e terapeuta natural. É especialista em Contação de História e consultora de projetos culturas e educacionais na unidade educativa Pueri Domus–Aruã (SP) e desenvolve a atividade nas Escolas UEB/Mogi das Cruzes (SP), e Mania de Aprender (SP), onde coordena atividades de contar histórias para alunos e professores da Educação Infantil e Ensino Fundamental, realizando palestras, oficinas e treinamentos sobre os temas da arte de contar, nos setores artísticos, educacional, social e empresarial. Após passar por outras companhias formou a Cia. Clara Rosa, onde dirige, representa e atua na produção de espetáculos infantis e adultos, realizando produções culturais e diversos projetos, e ainda a organização de eventos artísticos com artistas nacionais e internacionais.

Quais são os fatores que fazem com que o direito ao brincar seja negligenciado e o que pode ser feito para mudar essa realidade? De que forma brincar de contar histórias pode contribuir nesse processo?

Bem, esta é a parte mais dolorida. A negação do direito de brincar muitas vezes parte do próprio reconhecimento que brincar é um direito! E se eu não o reconheço assim, raramente o cumpro como dever. Na sociedade, tão cúmplice do isolamento urbano, é perceptível à normalidade de crianças sem quintal, ouvindo livro virtual ou viciadas em games de lavagem cerebral. Pais cada vez mais cansados fazem do prazeroso ato de contar história antes de dormir, uma tarefa impossível! Professores desanimados acreditam que não tem “dom” nem tempo para tanto e pior, que as crianças de hoje não tem mais interesse em ouvir histórias. Uma série de desculpas formam este cenário de autoabandono. Precisa haver uma revisão, reflexão e discussão sobre o tema. Talvez o contar histórias neste processo de reconhecimento de importância seja um excelente caminho para se efetivar o brincar. Talvez ajude a pensar na história que somos, e perante as nossas escolhas, quais as histórias que contamos.

É possível envolver a família na atividade de estímulo ao imaginário, por meio de contação de histórias? De que forma?

Tanto é possível, quanto acredito que muitas famílias vivenciam atividades lúdicas, mas muitas vezes nem se percebem nesta pratica. Pois como sempre trago em destaque nas formações “tudo conta histórias o tempo todo”. Principalmente as famílias de crianças da primeira infância. Um exemplo clássico do brincar com animação de objetos, é quando se oferece uma colherada de comida fazendo desta, um potente avião e da boca a garagem. Assim como cozinhar e repassar receitas de famílias, deixar as crianças vestir roupas de adultos, criar personagens de faz de conta entre os familiares e sentar na sala de estar com álbuns de fotografias. Cada foto guarda tantas histórias!  São práticas tão conhecidas, mas que não dimensionamos sua importância. Não só para crianças, mas para os interlocutores adultos principalmente. Pois quanto mais se brinca de ser criança, mais se conquista das crianças a confiança. Se dedicar ao momento de leitura ou muitas vezes contar ou inventar histórias antes da criança dormir, ritualiza o ciclo do “fim do dia” com encantamento. Um momento de profundo afeto, que prepara a criança para o sono e a aproxima dos melhores sentimentos entre as partes. Sim, porque contar histórias é um gesto de amor! Capaz de eternizar momentos e transformar vidas.

De que forma contações de histórias podem ampliar o repertório da criança?

As possibilidades que o contar histórias propicia é um universo de despertares. A ampliação de visão de mundos, culturas, valores, vocabulários, conhecimentos e principalmente sabedorias podem estar contidas em uma única história. Tive uma experiência maravilhosa como uma criança que ouvindo uma história com estímulos sensoriais, por fim emocionada me agradecia por ter podido conhecer o mar e realizar um sonho. O poder do imaginário! Em cada narrativa ou brincadeira de contar, inúmeros elementos e símbolos enriquecem as origens de referências intrínsecas em cada criança em formação. Eu posso não ter estado fisicamente no mar, mas estive nele. O próprio desejo, que por vezes, depois de ouvir, a criança tem de recontar a história já é um gesto de repertoriar, além de outras linguagens que o contar histórias carrega dentro dele mesmo como o repertório gestual, musical, poético e principalmente literário. Também destaco as consequências naturais desta prática que explora o repertório de leituras, memórias e registros de histórias, que a criança arquivará como referência por receber as contações e fazer destas, momentos especiais para o todo da sua existência. Para a formação da identidade de uma sociedade e para preservação e continuidade da mesma, é essencial e vital a preservação da tradição oral. Mesmo que sejam tradições orais de sua própria família é importante manifestar o hábito de recontar a história de seus antepassados que precisa ser melhor valorizada e aproveitada. Uma prática tão antiga e essencial para formação do que somos hoje, pois quanto mais se repassa, por exemplo, o contar de memórias de fatos vividos, mais se vincula as origens de sua própria história geradora. Isso aprendemos com as tradições ancestrais, que por milênios preservaram suas riquezas culturais através do contar compartilhado de geração em geração. Infelizmente, a maioria delas hoje são esquecidas e invertidas neste “quem conta um conto aumenta um ponto”. Outro fator importante é o desenvolvimento da comunicação pessoal e interpessoal. Quando eu brinco de faz de conta que sou um príncipe corajoso, este exercício prazeroso me prepara para presentes e futuras batalhas naturais da vida. Este brincar com o imaginário ensina tanto a lidar com o comportamento, quanto amadurecer o poder de escolhas. Um preparo lúdico para a vida.