A brincante Adriana Klisys, uma das mais importantes autoras brasileiras sobre o brincar na infância. Formadora convidada do projeto Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar, tem trabalhado diversas temáticas com os educadores participantes, com destaque para os “Jogos, Brinquedos e Brincadeiras” e a “Participação dos adultos nas brincadeiras”. Formada em psicologia pela PUC-SP, atribui sua formação lúdica à vivência de brincar com crianças e adultos, através do seu trabalho e nos estudos que desenvolveu em parceria com outros estudiosos. Klisys atua em diversos segmentos, como a criação de jogos e programação de lazer, palestras, cursos e oficinas na área lúdica, escrita e concepção de materiais educativos, vivências lúdicas para adultos, assessoria para diferentes mídias que envolvam caráter lúdico e cultural, curadoria para exposição de brinquedos e montagem de acervo lúdico em brinquedotecas, jogotecas e espaços do brincar. Adriana também é autora dos livros: Quer Jogar?, Ciência, Arte e Jogo, Brincar e Ler para Viver, Brinca Ciência volumes 1 e 2 e Bem-vindo, mundo! Sua brincadeira favorita é inventar.

O que você quer dizer exatamente com brincar de inventar?
É difícil ter um brinquedo favorito. Creio que gosto mesmo é de brincar de inventar possibilidades com materiais que não são brinquedos e que podem vir a ser, como invenções com caixas de papelão, pregadores de roupa, tecidos, etc. É divertido descobrir possibilidades ocultas nos objetos. Fazer um carretel de fiação virar mesa de jogo, réguas virarem caleidoscópio, cds virarem piões e assim por diante. E por falar em piões, está aí um brinquedo que aprecio. Inclusive tenho uma coleção de piões do Brasil e de várias partes do mundo: alguns saltadores, outros que assobiam, outros que rodam por labirintos derrubando piões no caminho. Outra brincadeira que é bastante agradável é brincar com as ideias através da escrita. Gosto imensamente de escrever. Acho que é uma forma de dar sentido às coisas.

Quais são os fatores que fazem com que o direito ao brincar seja negligenciado e o que pode ser feito para mudar essa realidade?
Creio que os fatores associados como inimigos do brincar, a exemplo da tomada das ruas pelos carros, a violência urbana, a falta de tempo dos pais e adultos, a falta de tempo na grade curricular aprisionada num currículo sob a ótica da produtividade e tantos outros, podem se resumir num fator pontual, que a meu ver, impede o direito de brincar que é NEGÓCIO (negação do ócio). O “negócio” está cada vez mais ocupando o lugar do ócio. O negócio como negação do ócio é algo preocupante numa sociedade fortemente voltada ao consumo e menos às questões centrais para a brincadeira: o tempo livre, o espaço para criação, imaginação e interação sem a exigência do que se vai produzir, fruto da convivência em grupo.

Tanto se fala no mundo atual em sustentabilidade. Ora, o brincar é altamente sustentável! Uma praça com área verde é terreno fértil para brincadeira, mas o negócio sempre fala mais alto e estes terrenos estão sendo transformados em estacionamentos, shoppings de consumo. Já imaginou se no lugar de shoppings centers de compras, tivéssemos estes mesmos equipamentos voltados para promoção do brincar e da cultura do bem viver: aulas de circo, dança, brinquedotecas, jogotecas, oficinas de artes, música, etc. Creio que precisamos de muito menos consumo e mais interação, vínculos com os outros. Lembrando que a brincadeira é mestra em criar vínculos! Entretanto, a sociedade caminha para outra direção, pouco aberta à brincadeira.
Creio que é urgente criarmos políticas públicas para cuidar do brincar com qualidade não só na infância, porque as crianças são mestras em driblar as adversidades para brincar. Quem tem mais dificuldade em brincar e cuidar do saudável tempo da brincadeira são os adultos. Na Colômbia, há um trabalho pioneiro na questão do brincar na vida adulta. Há mais de 20 anos o país reconheceu uma profissão ligada ao ócio e ao tempo livre. Profissionais da recreação fazem, por exemplo, um trabalho exemplar com a terceira idade, com os chamados “Adultos Mayores”.

Gostaria de me candidatar aqui no Brasil a lançar o Ministério Lúdico, com a campanha: Não brincar é prejudicial à saúde! Como diria minha sobrinha de 10 anos em seu sábio lema: “Não economize brincadeiras!”

Qual a importância dos brinquedos e brincadeiras para a construção da identidade da criança?
Os brinquedos, assim como as brincadeiras, são excelentes convites à imaginação, ao movimento, a expressividade e a interação, responsáveis pela comunhão de ideias, desejos e enredos lúdicos. Quer coisa melhor para quem está crescendo e inaugurando um mundo todo? Quando brinca a criança está exercitando sua autonomia, sua capacidade de tomar decisões, expressar seus sentimentos e ideias. Enfim, pode-se dizer que brincar é um exercício pleno de auto-conhecimento.

Qual é o papel da família no desenvolvimento destas práticas lúdicas?
Brincar com os pais é fundamental porque eles são figuras centrais na vida de uma criança, foram eles que a geraram, eles que trouxeram ao mundo. São as pessoas que a criança conhece de forma mais íntima. Ela espera muito destas pessoas que lhe deram a vida. E, certamente, quer compartilhar o seu maior ensinamento a eles: sua capacidade de brincar, de transformar o mundo em sua brincadeira. Quando uma criança convida seus pais a brincar está oferecendo sua vitalidade no sentido mais amplo da palavra. Por isso, eu completaria a pergunta, indagando: – Qual é o papel dos filhos no desenvolvimento das práticas lúdicas dos pais e familiares? E arrisco a dizer que é um privilégio permitir-se entusiasmar-se com as descobertas das crianças para reaprender a brincar, atualizar a própria cultura lúdica e revigorar sua própria vida.

A brincadeira dá cambalhotas para a realidade, desconcerta a seriedade e acorda para os sonhos e desejos d’alma. Por isso, o convite muito sábio da criança de brincar de ver o mundo com olhar inaugural!

Antes de mais nada é bom lembrar que brincar é ganho de tempo, não perda de tempo! A brincadeira embala a criança para a vida e o adulto para encontrar sua natureza primeira. Brincadeira não tem idade, nem pra começar, nem pra terminar! Com ou sem filho, todo mundo deveria entrar na brincadeira e poder desfrutar dela o maior tempo possível, não o mínimo tempo possível.