O brincante Nélio Spréa contribui tanto nas formações da equipe de educadores, quanto nas formações dos projetos, interagindo diretamente com os participantes nos municípios, compartilhando seus conhecimentos sobre “Cultura infantil e brincadeiras” através da musicalidade. O paranaense é licenciado em Música (FAP), Mestre e doutorando em Educação (UFPR), atua como educador, músico, produtor cultural e pesquisador, dedicando-se à revitalização do espaço escolar, ao fomento de práticas pedagógicas voltadas a uma educação mais sensível e à valorização e divulgação da cultura popular brasileira. Já desenvolveu e coordenou dezenas de projetos sociais dirigidos a escolas públicas e comunidades carentes. É autor de livros, CD’s e filmes infantis, dos quais se destacam o livro e documentário Brincantes, com o qual recebeu a menção honrosa do Prêmio Pierre Verger 2010, da Associação Brasileira de Antropologia e o curta metragem “O Fim do Recreio”, premiado em diversos festivais brasileiros de cinema infantil.

Qual a importância dos “brinquedos cantados” no contexto cultural?

Os brinquedos cantados são ricas construções culturais, lapidadas pelo tempo, que envolvem a criança em situações de enfrentamento social. Além de potencializarem o desenvolvimento da musicalidade, expandido o repertório de expressões da criança, agem como uma espécie de exercício de socialização, exigindo determinados comportamentos para cada ocasião ou momento da brincadeira. Dar as mãos, girar coletivamente, cair, soltar, abrir e fechar a roda, esperar a vez, bater a palma ao mesmo tempo, são formas de exercitar a atenção ao outro e sujeitar-se àquilo que não é apenas seu, mas compartilhado por todos. As rodas cantadas são momentos em que deixamos um pouco de lado nossos mais imediatos interesses pessoais, nosso egoísmo, para que em nome da diversão coletiva, a brincadeira aconteça.

Ao seu ver, quais são os fatores pontuais que fazem com que o direito ao brincar seja negligenciado e o que pode ser feito para mudar essa realidade?

Acredito que uma das principais causas da negligência que vemos em relação ao brincar está na dificuldade de compreensão do mundo simbólico das crianças. Este mundo é incrivelmente dinâmico, varia imensamente e se estrutura com base nos modos de vida dos adultos. Para compreendê-lo é preciso se reportar às expressões da criança e às linguagens da infância. E estas expressões repercutem pouco em um mundo cronometrado, controlado, vigiado. O tempo é escasso e são precários os espaços para o encontro, para o protagonismo, para a tomada de decisão. A criança está sobrecarregada de compromissos. Em nome do progresso, do rendimento, do consumo, perdemos de vista aquilo que ainda insiste em aparecer: a invenção das brincadeiras, um fenômeno que revela a busca do ser humano por novidade, a novidade que ressignifica cotidianamente a vida.

De que forma a música pode contribuir na formação da criança?

A música é uma linguagem com a qual a criança se identifica, interage e se expressa desde muito cedo. O desenvolvimento da musicalidade cria maiores condições de interpretação do mundo humano, pois o mundo humano é também expresso pela linguagem musical. A música também favorece o contato, promove interações, descobertas. Lembro que quando comecei a me interessar pela música dos povos alguns preconceitos ruíram em minha mente. Poder acessar e compreender distintas culturas por meio da música é algo engrandecedor! A reflexão sobre o outro é sempre uma reflexão sobre nós mesmos!