A brincante Renata Oliveira Costa é uma das formadoras convidadas do Projeto Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar, tendo ministrado formações sobre a “Criança, Família e o Direito ao Brincar” e sobre a “Organização de espaços para o brincar e brinquedos”. Além disso, é autora do artigo “Quer jogar comigo? Jogos, brinquedos e brincadeiras”, que compõe o livro para formação de educadores “Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar”. Renata é de São Bernardo do Campo, ABC Paulista, e atualmente mora em São Paulo (SP). Pedagoga formada pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP) interessou-se especialmente pela educação japonesa e a valorização cultural que esse povo tem com os espaços educacionais, família e escola. Chegou a desenvolver uma pesquisa sobre o processo de adaptação das crianças brasileiras no sistema de ensino do Japão, na Universidade de Aichi. Atualmente, dedica-se ao seu empreendimento “Atelier de Brinquedos”, espaço de valorização do traço infantil e expressão artística das crianças através da confecção de brinquedos de pano inspirados nos desenhos infantis. Seu brinquedo favorito é o Boneco de Pano.

Porque o boneco de pano é seu brinquedo predileto?
Eu era uma menina moleque! Usava uma chuteira para ir à escola e aproveitava para jogar futebol com os meninos no intervalo. Tive vários brinquedos: casinha, bonecas, jogos de montar, bicicleta, bola, caderno de desenho, livros, radinho karaokê. Também brinquei muito na rua com os meus vizinhos de taco, guerra de barro, esconde-esconde. Mas, o brinquedo que mais gostava de estar a todo momento era um boneco de pano. Ele era meu companheiro de todas as aventuras, cuidava dele, dormia com ele e levava ele para passear para todos os lugares. O boneco de pano é o brinquedo que simboliza o cuidado, estimula a criatividade e estreita os vínculos de afetividade entre criança e adulto. Ao segurar um boneco de pano, a criança tem a sensação de que está segurando algo macio e vivo, pois ela sente o calor da sua própria mão no boneco. Além disso, o boneco de pano é um brinquedo confeccionado por um artesão que deixa suas marcas em cada brinquedo feito.

Quais são os fatores que fazem com que o direito ao brincar seja negligenciado e o que pode ser feito para mudar essa realidade?
Como a família é o primeiro grupo social que a criança tem contato e ela é responsável pela transmissão da cultura, valores e costumes, um dos pontos que faz com o que o brincar seja negligenciado é a ausência dessa mesma família na vida das nossas crianças, por não saberem se fazer presentes, numa sociedade cada dia mais sem tempo e espaços para o brincar.
A vida na sociedade atual está cada vez mais rápida devido ao excesso de horas que as pessoas se comprometem com o trabalho. Muitos familiares não conseguem ver seus filhos crescerem, não curtem o primeiro desenho ou a primeira palavra escrita no papel, não ouvem mais as primeiras palavras da criança. Esses cuidadores vivem todas essas emoções, muitas vezes, como se fossem espectadores do filme de suas próprias vidas.
Para compensar essa ausência e a dor que sentem por não acompanharem o crescimento da sua criança, esses cuidadores compram brinquedos e mais brinquedos para os seus filhos, muitas vezes sem saber a simbologia e os valores da sociedade do consumo que estão incutidos neles.
Do mesmo modo, as ruas e quintais, que são territórios do brincar, estão cada dia perdendo o seu espaço nas memórias das nossas infâncias. O número de casas com quintais está diminuindo e o aumento da violência tem distanciado as crianças das ruas.
O cuidador precisa aprender a se fazer presente de outras formas onde a criança se sinta livre para escolher e criar seus brinquedos e brincadeiras num processo de construção criativa, ou seja, fazer junto com a criança um boneco de pano com retalhos para valorizar o poder criativo desse pequeno artista, e, assim, estreitar os laços de afetividade entre adulto e criança. Ainda, disponibilizar diversos materiais para a criança transformar um objeto comum num brinquedo, auxiliando no desenvolvimento da sua capacidade imaginativa. São tantas as formas de se fazer presente!
Nesse contexto, a escola tem um papel fundamental de chamar os cuidadores para essa reflexão sobre importância e os cuidados de se fazer presente na vida de uma criança através do brincar. Não temos as ruas e os quintais como antigamente, mas temos a escolas com seus vastos corredores, sua quadra, jardim, sala de aula, para garantirmos o brincar na infância. Podemos construir novas ruas, quintais e casas para o brincar livre, mas antes temos que ter consciência da importância desses espaços para o desenvolvimento e aprendizagem das nossas crianças.

Qual a importância dos brinquedos e brincadeiras para a construção da identidade da criança?
Atualmente, com as novas descobertas da neurociência sobre a formação do cérebro humano, a fase da vida de ouro para desenvolver as mais diversas habilidades é a infância. Estamos aprendendo com essas novas descobertas que as crianças conseguem se comunicar com o mundo por meio dos seus sentidos. Elas têm necessidades e cuidados dentro do seu processo de desenvolvimento e brincadeira é coisa séria.
Com bilhões de células neurais para serem conectadas desde os primeiros meses de vida, as crianças só pedem para o mundo que ele seja tão estimulante quanto a cede que elas têm de viver e aprender tudo que está ao seu redor. E se a vida é movimento, na infância é mais ainda, pois a criança explorando sua capacidade motora correndo, brincando, pulando e se jogando no mundo auxilia na formação da rede neural.
E se aprender é como viver o novo a todo o momento, questionando tudo, trocando com seus pares, conversando, convivendo com o diferente, experimentando sem preconceito, a criança vive por seu olhar um processo de criação artística constante. A todo o momento ela está imitando a vida por meio do brincar e seus primeiros rabiscos. Assim, aprendendo a ser consigo, com o outro e com o mundo.

Qual é o papel da família no desenvolvimento destas práticas lúdicas?
Desde a mais tenra idade a criança cria e recria seus brinquedos e brincadeiras. Tudo que a criança toca é um convite para brincar porque é assim que ela se comunica com o mundo, brincando.
Quando ainda bebê, o seu quintal é o seu próprio corpo. Para conhecer a si mesmo e os limites do próprio corpo, a criança parte para uma viagem de exploração infinita das coisas ao seu redor. Ela se arrasta pera pegar o que quer, estica o corpinho para alcançar algo que lhe chama atenção, imita os sons mesmo sem compreender ainda o seu significado. Tudo pelo prazer de ser, estar e viver no mundo.
O brincar da criança é enriquecido pela cultura a qual está inserida e a família tem um papel fundamental nesse processo. As crianças aprendem tradições, costumes e valores por meio de brinquedos e brincadeiras que são transmitidos de geração a geração, inicialmente dentro da sua própria família. Amarelinha, taco, pega-pega, esconde-esconde, casinha, boneca, carrinho.
Brincadeiras que fazem parte da tradição de povos e são reinventadas a cada criança que se entrega às suas regras. Só podemos concluir com isso que a dádiva da infância para o mundo adulto é conseguir reinventar a vida com o seu poder imaginativo, desenvolvendo no ser humano a capacidade de criar e inovar as coisas.
Encontramos relatos de famílias indígenas que entregam para os meninos logo ao nascer miniaturas de ferramentas, arco e setas para introduzir a criança logo cedo nos afazeres da tribo. Brincando a criança vai interiorizando o seu papel no grupo social o qual convive e tudo graças a esses objetos brinquedos e o tempo dedicado ao brincar que a própria família vai disponibilizando para e com a criança.

Conheça o trabalho de Renata Costa:
www.atelierdebrinquedos.com.br